terça-feira, 8 de agosto de 2017

Agora as palavras demoram nos dedos


Agora
o disfarce foge-me do rosto,
esfuma-se a máscara com que me adiava.
Fica-me a lua
esquecida nos olhos
a deixar ver as frinchas desatadas.

Agora
ando só pelo avesso das coisas
na urgência secreta de sair da parede.
Fica-me a ausência
do retrato nas mãos
e o medo obsceno a tocar-me ao de leve.

Agora
as palavras demoram nos dedos
e na ondulação longa dos sentidos.
Fica-me o outono
preso nos cabelos
e as folhas secas a almofadar os trilhos.

Maria da Fonte
Imagem da internet

domingo, 16 de julho de 2017

Eu pertenço ao decote dos teus olhos



Nos teus olhos há decotes que me levam
e as horas são mais sólidas assim.

Eu entro no vestido onde me faço, tu pintas-me
entre a ausência e o que há em mim
e finges morrer exausto em cada traço.

Abres os braços para rasgar silêncios, num risco mais preciso
que o meu verso. Amacias o roteiro dos meus dedos,
deixas pulsar nas mãos o universo.

Eu pertenço ao decote dos teus olhos. Faz-me viagem
nas cores do teu pincel. Depois, ao fundo do céu,
pinta-me a morte, como um ditongo de tinta no papel.

Maria da Fonte

Pintura de Mutes

quinta-feira, 22 de junho de 2017


Demoras-te
eternamente nos meus dedos
e eu morro
mais devagar nos que eram teus.

Quando a dor
é um lugar sem dimensão,
não há limite traçado para o adeus.

Maria da Fonte

quarta-feira, 14 de junho de 2017

Pássaros seguros


Talvez tu saibas que as minhas mãos são muros,
que os muros trazem com eles a essência do abismo.

São grandes os dedos entre trincheiras
e de pedras as palavras que procuro.
Vergam-se, por certo, as fachadas.

O céu cabe inteiro nos telhados,
as janelas são pássaros seguros.

Maria Da Fonte
Imagem retirada da internet

domingo, 4 de junho de 2017


Entrega-se um coração
ao domicílio,
redondo e sem sinais de arritmia.

A bater num compasso
repetido,
entre camadas, em grande acrobacia.

Desce ao fundo do dia
já mais perto,
sobe ao cimo da noite mais além.

Cabe inteiro nas mãos
de quem o quer,
sem resvalar no templo de ninguém.


Maria da Fonte




quinta-feira, 1 de junho de 2017

No fundo das jarras


Este rio, que me chega de gargalo aberto,
fez-me gume de mártir em pés de argila.

Há de levar-me um recado de espera
em poemas de vidro.

E então, quando a água do cais me vaguear nos olhos,
eu serei a imensidão das margens no fundo das jarras.

Maria da Fonte

domingo, 7 de maio de 2017

Outras mãos te forjaram, minha mãe


Para te devolver o busto que me deste,
fiz-me escultor uma vida.

Dobrei segredos, soldei palavras ditas,
moldei histórias em relevo parcial.

Dar-te forma vertical e pés de âmbar,
entre o abstrato e as linhas definidas.

Misturei técnicas, figuras, materiais.
Quis-te Pietà, versão mais atual.

Mas uma só distração, um filamento,
fundiu-se o bronze, vergaste ponta a ponta.

Restam-me as palavras de vidro que te dei,
trancou-se a porta que me levava ao teu rosto.


Outras mãos te forjaram, minha mãe.

Maria da Fonte