sexta-feira, 19 de janeiro de 2018

À noite o tempo tem mais pressa



Um rasgo de mão e acrescentas
um qualquer pormenor ao vaguear.

(À noite o tempo tem mais pressa,
as sombras vestem agasalhos.)

Um rosto espera por ti
e tu desenhas-te sorrateiramente no olhar.

Em fila os dedos guardam novos rumos.

Deixas-te descer pontualmente,
resgatas-te, depois, em cada corrente de ar.

Maria da Fonte

quinta-feira, 11 de janeiro de 2018


De cima, as curvas dos ratos escondem
figuras de gente. Com efeitos laterais,
nunca visíveis de frente.

Na construção da imagem,
a obra engana o olhar.
Um rato desaparece, outro surge em seu lugar.

Um jeito dado à tela,
e os pequenos roedores, das tocas onde procriam,
emergem aos corredores.

No baloiçar da moldura para um e outro lado,
percebem-se leves traços
de um peito meio inchado.

Estendem-se depois os efeitos do centro
até às beiras e os ratos pincelados
criam famílias inteiras.

E se a tela não cair ,entre uma e outra pista,
detalhes mostram que os ratos
comem a mão do artista.

Maria da Fonte

quinta-feira, 14 de dezembro de 2017



No perfil definido das manhãs,
nada de marcante a assinalar.

O céu emoldurado dos cabelos,
a cidade emaranhada no rosto,
as horas debruçados no olhar.


E como se não lhe bastasse
a trepidação dos dedos,
ainda há vento para as palavras se fazerem ao mar.

Maria da Fonte

quarta-feira, 20 de setembro de 2017

Salve-se o voo dos pássaros


Asas martelam os gestos,
refrões torneiam os ninhos.

Das palhas soltam-se voos
que se ajustam ao abismo.

É este o rumo dos pássaros,
na pulsação suicida.

De quem procura na queda
um incentivo à vida.

Mais leve, o dia os habita
Nos longos voos do céu.

Feitos pedaços de estrelas,
da caixa que alguém partiu.

Maria da Fonte

terça-feira, 8 de agosto de 2017

Agora as palavras demoram nos dedos


Agora
o disfarce foge-me do rosto,
esfuma-se a máscara com que me adiava.
Fica-me a lua
esquecida nos olhos
a deixar ver as frinchas desatadas.

Agora
ando só pelo avesso das coisas
na urgência secreta de sair da parede.
Fica-me a ausência
do retrato nas mãos
e o medo obsceno a tocar-me ao de leve.

Agora
as palavras demoram nos dedos
e na ondulação longa dos sentidos.
Fica-me o outono
preso nos cabelos
e as folhas secas a almofadar os trilhos.

Maria da Fonte
Imagem da internet

domingo, 16 de julho de 2017

Eu pertenço ao decote dos teus olhos



Nos teus olhos há decotes que me levam
e as horas são mais sólidas assim.

Eu entro no vestido onde me faço, tu pintas-me
entre a ausência e o que há em mim
e finges morrer exausto em cada traço.

Abres os braços para rasgar silêncios, num risco mais preciso
que o meu verso. Amacias o roteiro dos meus dedos,
deixas pulsar nas mãos o universo.

Eu pertenço ao decote dos teus olhos. Faz-me viagem
nas cores do teu pincel. Depois, ao fundo do céu,
pinta-me a morte, como um ditongo de tinta no papel.

Maria da Fonte

Pintura de Mutes

quinta-feira, 22 de junho de 2017


Demoras-te
eternamente nos meus dedos
e eu morro
mais devagar nos que eram teus.

Quando a dor
é um lugar sem dimensão,
não há limite traçado para o adeus.

Maria da Fonte